Estes loucos que correm

Antes de eu gostar de correr eu achava que as pessoas que corriam eram loucos. Eu não conseguia compreender o que levaria uma pessoa a sair correndo pelas ruas. Hoje eu sei porque eu corro, corro porque gosto de correr, mas nem sempre foi assim.
Antes de correr e descobrir que gosto de correr, de compreender o que está relacionado com a corrida e me enveredar por este mundo de loucos, sempre que eu via alguém correndo na rua, comentava:

“Olha que cara louco”

Sim, porque sempre achei loucos os que correm 🙂

 

Marciano Durán, Março 2008.
(tradução para português Alfredo Falcão)

Eu conheço-os.

Tenho-os visto muitas vezes.

São especiais.

Alguns saem de madrugada e empenham-se em ganhar ao sol.

Outros apanham o sol ao meio-dia, cansam-se à tarde, ou tentam não ser atropelados por um camião à noite.

Estão loucos.

No verão correm, trotam, transpiram, desidratam-se, e finalmente cansam-se … só para desfrutar do descanso.

No Inverno tapam-se, abrigam-se, reclamam, arrefecem, constipam-se e deixam que a chuva lhes molhe a cara.Eu vi-os.

Passam rápido ao longo da alameda, devagar entre as árvores, serpenteiam caminhos de terra, trepam calçadas, fazem jogging na curva de uma estrada perdida, fogem das ondas na praia, atravessam pontes de madeira, pisam folhas secas, sobem montes, saltam charcos, atravessam parques, chateiam-se com os carros que não travam, fogem de um cão e correm, correm e correm.

Ouvem música que acompanha o ritmo dos seus pés, ouvem os padeiros e as gaivotas, ouvem os seus batimentos e a sua própria respiração, olham em frente, olham para os pés, sentem o cheiro do vento que passou por entre os eucaliptos, a brisa que saiu do laranjal, respiram o ar que vem dos pinheiros e abrandam ao passar em frente do jasmim.

Eu já os vi.

Não estão bons da cabeça.

Eles usam tênis com ar e sapatilhas de marca, correm descalços ou gastam sapatos.
Transpiram t-shirts, usam gorros e medem o seu próprio tempo.Eles estão a tentar ganhar a alguém.

Trotam com o corpo solto, passam perto do cão branco, aceleram a seguir à coluna, procuram uma torneira para se refrescarem… e seguem.Inscrevem-se em todas as corridas… mas não ganham nenhuma.

Começam a corrida na véspera, sonham que correm e levantam-se como as crianças no dia de Natal.

Prepararam as roupas que descansam sobre uma cadeira, como fizeram na sua infância na véspera das férias.

No dia anterior à corrida comem massa e não bebem álcool, mas são recompensados com ousadia mal a competição termina.

Nunca consegui calcular-lhes a idade, mas provavelmente têm entre 15 e 85 anos.

São homens e mulheres.

Não estão bem.

Começam em corridas de oito ou dez quilômetros e antes de começar sabem que não podem vencer, mesmo que faltem todos os outros.

Sentem a ansiedade antes de cada partida e alguns minutos antes do início eles precisam ir à casa de banho.

Ajustam o cronômetro e tentam localizar os quatro ou cinco a quem é preciso ganhar.

São as suas referências da corrida: “Cinco que correm como eu.”

Basta chegar à frente de um deles e será o suficiente para dormir à noite com um sorriso.

Usufruem enquanto ultrapassam outro corredor… mas encorajam-no, dizendo-lhe que falta pouco e pedem-lhe para não abrandar.

Perguntam pelo abastecimento de água e ficam irritados porque não aparece.

Estão loucos, sabem que têm nas suas casas a água que precisam, sem esperar pela entrega de uma criança que levanta um copo à medida que passam.

Queixam-se do sol que os mata sol ou da chuva que não os deixa ver.

Estão mal, eles sabem que há perto a sombra de um salgueiro ou o resguardo de um beiral.Não as preparam… mas eles têm todas as desculpas para o momento em que atingem a meta.

Não as preparam… são parte deles.

O vento estava contra, não corria uma gota de vento, as sapatilhas eram novas, o circuito estava mal medido, os que entraram à frente não deixaram passar, o aniversário de ontem à noite, a costura na meia sobre o pé direito, o joelho a trair-me outra vez, arranquei muito rápido, não deram água, no fim ia acelerar mas não quis.

Gostam de começar a correr e quando chegam levantam os braços, porque dizem que conseguiram.

Ganharam mais uma vez!

Eles não percebem que perderam para cem ou mil pessoas… mas insistem que voltaram a ganhar.

São invulgares.

Inventam uma meta em cada estrada.

Ganham a eles próprios, aos que insistem em olhar para eles desde a calçada, aos que os vêm na TV e aos que nem sequer sabem que existem loucos que correm.

Tremem-lhes as mãos enquanto furam a roupa para colocar os dorsais, simplesmente porque não estão bem.

Eu já os vi passar.

Doe-lhes as pernas, sentem cólicas, custa-lhes a respirar, sentem pontadas nas costas… mas seguem.

À medida que avançam na corrida os músculos sofrem cada vez mais desfigurando rosto, o suor escorre pelas suas caras, as pontadas começam a repetir-se e dois quilômetros antes da meta começam a perguntar o que estão ali a fazer.

Não seria melhor serem um dos sábios que batem palmas na calçada?

Estão loucos.

Eu conheço-os bem.

Quando chegam abraçam-se à sua mulher ou ao seu marido para esconder o puro amor da transpiração do seu rosto e do seu corpo.

Esperam-nos os seus filhos e até algum neto ou mesmo o carinho de um avô que grita solidário quando eles passam a linha da meta.

Trazem uma placa à frente que pisca e diz “Cheguei – Missão Cumprida. ”

Apenas bebem água e molham a cabeça, quase se atiram para a relva para recuperar, mas depois param, porque são saudados por aqueles que chegaram antes.

Tentam atirar-se de novo mas param porque têm que saudar os que chegam depois deles.

Tentam empurrar uma parede com as duas mãos, levantam a perna desde o tornozelo e abraçam outro louco que chega mais suado que eles.

Tenho visto muitas vezes.

Estão mal da cabeça.

Eles olham com carinho e sem lástima o que chega dez minutos depois, respeitam o último e o penúltimo porque dizem que são respeitados pelo primeiro e pelo segundo.

Aproveitam os aplausos, mesmo que vejam no fim ganhando apenas à ambulância e ao tipo da moto.

Juntam-se em equipas e viajam 200 quilómetros para correr 10.

Compram todas as fotos que lhes tiram e não percebem que são iguais às da corrida anterior.

Penduram as medalhas pela casa para que quem a visita possa vê-las e pergunte.

Estão mal.

“Esta é do último mês” dizem, tentando usar seu tom mais humilde.

“Este é a primeira que ganhei” dizem eles, omitindo que as distribuíam a todos, incluindo o último a chegar e o polícia de trânsito.

Dois dias depois da corrida muito cedo já saltam por cima das poças, escalam as cordas, movem os braços ritmicamente, acenam aos ciclistas, batem as palmas das mãos com os colegas com quem se cruzam.

Dizem que poucas pessoas, hoje em dia, são capazes de ficar sozinhos – consigo mesmo – uma hora por dia.

Dizem que só os pescadores, nadadores e alguns mais.

Dizem que as pessoas não estão usufruindo tanto do silêncio.

Eles dizem que gostam dele.

Eles dizem que projectam e fazem balanços, que se arrependem e se congratulam, que se questionam, preparam os seus dias enquanto correm e conversam sem medo com eles próprios.

Eles dizem que os outros inventam desculpas para lhes fazer companhia.

Eles estão mal da cabeça.

Eu já vi.

Alguns apenas caminham… mas um dia… quando ninguém está a olhar, animam-se e correm um bocadinho.

Em poucos meses começam a transformar-se e ficam tão loucos como eles.

Esticam-se, olham, rodam, respiram, suspiram e atiram-se.

Aceleram, abrandam e voltam a acelerar.

Eu acho que eles querem vencer a morte.

Eles dizem que querem vencer na vida.

Estão completamente loucos.

About JosaJr

Um sujeito que mede o seu próprio sucesso pelo que inspira outras pessoas a fazerem de bom pelas suas vidas. Um eterno sonhador, corredor, artesão, cozinheiro, fly fisherman, criador do Endorfine-se, portal multi esportivo para quem corre ou pedala na rua e na montanha. Um belo dia resolveu levar uma vida mais saudável e perdeu 28kg em 5 meses e agora quer dividir com todo o mundo o que aprendeu e ainda vai aprender \o/

JosaJr

Um sujeito que mede o seu próprio sucesso pelo que inspira outras pessoas a fazerem de bom pelas suas vidas. Um eterno sonhador, corredor, artesão, cozinheiro, fly fisherman, criador do Endorfine-se, portal multi esportivo para quem corre ou pedala na rua e na montanha. Um belo dia resolveu levar uma vida mais saudável e perdeu 28kg em 5 meses e agora quer dividir com todo o mundo o que aprendeu e ainda vai aprender \o/

5 comentários em “Estes loucos que correm

  • dezembro 8, 2012 em 3:07 pm
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    Me gustó mucho el video.
    No hubiera sobrado un crédito para el que lo escribió (una firmita)
    Marciano Durán.

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  • dezembro 8, 2012 em 7:57 pm
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    Estimado Marciano,
    En primer lugar me gustaría dar las gracias por su visita y su comentario. También me gustó el video, pero me gusta aún más de su texto. Exactamente por qué me aseguré de que buscarlo en Internet, encontrar al autor y hacerle justicia, citando la suya.
    Enhorabuena por tu trabajo y lo invito a volver 🙂

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  • dezembro 9, 2012 em 12:43 am
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    Ah, eu sou uma louca que nada. Muitas vezes me perguntaram como eu consigo passar tanto tempo debaixo dágua. A paz sentida é inexplicável! 🙂

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  • julho 4, 2015 em 9:09 pm
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    Uau, simplesmente isso!!! Parabens Josa, por seu esforço, sua garra e suas metas. Tenho certeza que ja esta cansado de ouvir coisas desse tipo, mas eu como iniciante, descobri seu blog e venho ganhando to incentivo atraves dele. Comecei agora, ainda vou fazer minha primeira 5K e como nesse texto, estou parecendo criança a espera do Natal. Sei que não chegarei em primeiro, como tbm sei que mesmo chegando em ultimo, agora o que realmente desejo eh ver que sou capaz de completar a prova. Eu vou conseguir… e desde ja agradeço a vc que tem sido um dos meus incentivadores nos momentos em que penso em desistir.

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  • julho 6, 2015 em 5:37 pm
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    Olá Alexandra,
    Obrigado mesmo, eu e a Bibi realmente nos emocionamos muito com mensagens assim. Damos o nosso melhor por aqui, e decidimos sempre compartilhas nossas alegrias e porque não, algumas frustrações também, exatamente para mostrar para todos que todos nós somos capazes. Continue sempre assim, sempre à diante. Pode apostar que você vai tirar estes 5k de letra 🙂

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