Radioamador sincero e a Morte do Radioamadorismo

Vejo muitas pessoas prevendo a morte do radioamador, ou do Radioamadorismo para muito breve. Então outros dizem que se previa isso nos anos 1970 e ainda estamos aí. Mas, estamos mesmo? O Radioamadorismo não vai morrer, no mundo. No Brasil é um moribundo.

E por favor, tente ler o texto todo antes de começar a apedrejar.

A Morte do Radioamador não vai acontecer no mundo

Enquanto no Brasil o radioamadorismo também não vai morrer, apesar de viver moribundo, em outros países ele continua atraindo jovens rapazes e moças para atividades outdoor envolventes. Exemplo não faltam, mas podemos citar o SOTA e os pódios em competições de Rádio orientação entre escolas e universidades, além de clubes e outras agremiações ligadas ao ham radio, como chamam por lá.

Ok que “ainda” existem expedições de radioamadores no Brasil. Mas por tudo que abordarei abaixo, isso não basta para atrair o jovem. Os gringos começam cedo, oferecendo a base através de atividades empolgantes que fomentam a vontade de se aprimorar, aprender e melhorar dentro da atividade. E muitas vezes fazem isso usando o tão odiado Baofeng de $25.

sota ham radio
SOTA -Summit On The Air

A Morte do Radioamadorismo

E vou colocar abaixo os motivos pelo qual o hobby radioamadorismo permanecerá moribundo no Brasil.

  1. Baixo nível econômico
  2. Baixo nível intelectual
  3. Baixa autodidata
  4. Baixo nível do conteúdo
  5. Foco na Tragédia
  6. Coisa de velho
  7. Não tem rádio pra comprar

Baixo Nível Econômico

Eu pensei em me referir a esse ponto como baixo nível socioeconômico, mas preferi dividir em dois. O brasileiro é pobre (e aqui generalizo lembrando que toda generalização prevê exceções) e os rádios são caros. E não é só pelo peso do dólar e dos impostos.

melhor radio para iniciantes

Os rádios, cabos, antenas e outros equipamentos necessários ao hobby são caros em dólar, são caros em euros, são caros no mundo todo. São equipamentos sofisticadíssimos que precisaram de muito investimento em R&D (pesquisa e desenvolvimento) mas vendem poucas unidades. Compare com o penúltimo modelo de smartphone que foi produzido e vendido aos milhões. Os rádios e demais equipamentos são caros para o mundo todo, mas nem todos no mundo são pobres como o brasileiro. Quanto melhor o poder aquisitivo do povo, mais forte o radioamadorismo no pais.

Até pouco tempo atrás, a linha de produtos para radioamador das empresas de rádio foram mantidas pelas linhas de rádios comerciais para aviação, marítimo, serviços, etc. Foi os Vectra mantendo o Corsa na linha de montagem. Agora passamos por um momento semelhante, mas ao contrário. O Corsa mantem o Vectra na linha de montagem. Os Baofengs e outros “radinhos” baratos, o (superior) Yaesu FT-4X e outros novos radinhos mais acessíveis vão manter caros rádios HF na linha de montagem.

Tudo isso para o desespero dos “cabeções” do radioamadorismo, que se fecham em “clubes secretos” sentados sobre sua sabedoria, transbordando preconceito, ao invés de receber bem o “carinha do Baofeng” e incentivá-lo a aprender, se desenvolver, se legalizar.

meu medidor de SWR e Potência

Eu quero entrar no radioamadorismo, mas não posso dispor de R$3200 para comprar um VHF de entrada, antena, cabos, conectores, mastro. Então um Baofeng com uma Flower Pot ser o passaporte para atracar uma repetidora e participar de uma rodada de papo furado. Sim, porque é disso que se tratam as rodadas, papo furado que não ensina nada aos novatos, apesar de servir para ajustar a estação, quando você tem uma. Mas isso é um outro problema que trataremos adiante. Nesse tópico encerramos dizendo que é um hobby caro com um povo pobre. Isso também contribui muito para A Morte do Radioamadorismo no Brasil.

Baixo Nível Intelectual

Podem atirar suas pedras no final, mas por enquanto continuem lendo.

Sim, radioamadorismo é muito complicado para o nível intelectual médio do brasileiro.

Estamos chegando na universidade sem saber ler e escrever. Sem saber fazer contas básicas. Basta olhar o nível dos posts nos grupos relacionados ao radioamadorismo no facebook. É de envergonhar como as pessoas não sabem escrever.

Adventure Radio

Parece pouco importante pra você? É disso que eu estou falando. A pessoa não consegue compreender um texto simples explicando os procedimentos para, do zero, conseguir o seu prefixo de estação. A Anatel ajuda complicando tudo que pode ser simples.

Pesquisar? Isso é para os fracos. Os brasileiro atual quer “ser ajudado”. “Você que lute para me ajudar a resolver o meu problema!”.

Ler e compreender um livro ou qualquer texto explicando como uma onda de radiofrequência se forma? Não para o brasileiro médio. Então o radioamadorismo é um bichinho complicado para o intelecto médio do brasileiro (e talvez do resto do mundo?).

Agora você consegue imaginar essa galera estudando e se desenvolvendo para se tornar um classe B, ou classe A? Quem vai para manter as repetidoras VHF no ar? Sim, porque os classe A estão morrendo.

Você consegue imaginar essa galera pobre financeira e intelectualmente comprando rádios, antenas, SWR meters, etc. e desenvolvendo seus conhecimentos só para colecionar DX em HF?

Eu adoraria fazer isso, mas se me sobra vontade e disposição para estudar e me desenvolver, me faltam recursos. Então é muita coisa para resolver. Nem vou abordar a homologação de rádios para poder operar estações móveis e fixas.

Entendeu como isso também contribui para A Morte do Radioamadorismo?

Baixa Autodidata

Como adiantei no tópico anterior, pesquisa é para os fracos. O brasileiro não sabe e não quer aprender sozinho. Quer pronto. Quer o peixe sem aprender a pescar. Se o cerne do radioamadorismo como hobby é o desenvolvimento técnico, estamos ferrados. Baixo nível intelectual e alto nível de preguiça para estudar e pesquisar, mesmo com apoio. Imagina se autodesenvolver tecnicamente. É duro né? Mas é verdade. E não é só no radioamadorismo, concordo, mas o bobby consiste em aprender e se auto desenvolver. Moribundo.

Baixo Nível do Conteúdo

Em especial no VHF que tem sido a porta de entrada no hobby, o nível do que se encontra é baixo. Não que numa rodada não se possa falar de coisas triviais, isso é super bacana, mas tirando poucas rodadas muito tradicionais, é fácil elas descambarem para discussão, muito palavrão, rodadas de papo furado que não agregam absolutamente nada para quem participa.

E como os velhos perceberam que os novos são preguiçosos, se tornam presunçosos e pouco interessados em “ajudar” aqueles poucos que são autodidatas, aqueles que mesmo pesquisando e buscando evolução técnica, ainda precisam do conhecimento dos mais velhos. Só que na maioria das vezes é via rádio que a maioria dos radioamadores mantem contato com outros radioamadores, em especial quando estão chegando no rádio.

Então quando se encontra alguém nas bandas do VHF que é hoje a porta de entrada, se encontra muito papo furado, palavrão, pouco interesse em ajudar. Mas sobra soberba e preconceito com a galera do baofeng/flower pot.

Não tem como um cenário assim não contribuir para A Morte do Radioamadorismo.

Conteúdo raro e pobre

Antes de continuar vamos falar de outro tipo de conteúdo. Existem poucas pessoas dispostas a compartilhar o que sabe na internet. Vemos uma multidão pedindo informações, mas uma minoria disposta a, por exemplo, criar um canal com vídeos ensinando a fazer alguma coisa, ou compartilhando algum conhecimento. E precisa ser em vídeo, já que a galera mais nova não sabe ler, ou são analfabetos funcionais.

Existem os compartilhadores de conhecimento, poucos, mas existem. Só que com todo o baixo nível que expus acima, não dá para esperar por conteúdo dinâmico e cativante. Procure por vídeos de radioamadores brasileiros no youtube e se prepare para o festival de bizarrice, com poucas exceções como o Samuca (PY1SR) ou o Igor (PY3IG). Tirando as exceções, a maioria absoluta dos vídeos são feitos com boa vontade é verdade, mas muito pobres em dinâmica, capricho e qualquer outro recurso capaz de prender a atenção da garotada e porque não dizer, provocar nelas a vontade de ser um radioamador.

Os sites são antigos e feitos em tecnologia ultrapassada. São feios com informação, na maioria das vezes, de difícil assimilação por pura falta de didática do autor, apesar de ser uma boa alma de boa vontade. Se falamos de sites individuais, ainda podemos relevar o caráter de amadorismo. Mas quando falamos dos sites de clubes, associações e até mesmo das Ligas de Amadores (você sabe do que estou falando), esse amadorismo deveria ficar só no nome e não transbordar no site.

E por falar nas ligas, seria ótimo deixar o linguajar burocrático para a Anatel e procurar se comunicar como as pessoas normais fazem.

Eu poderia discorrer um tópico inteiro sobre isso, mas apesar de estarmos operando sob o guarda chuvas das leis, me parece que a maioria dos radioamadores se colocar atrás das leis. Chapa, nós devemos ser a linha de frente com as leis nos resguardando atrás, e não nos escondermos atrás delas lançando mão do argumentum ad hominem contra todos que o interlocutor não sabe citá-las decor.

Foco na Tragédia

Leia matérias onde os radioamadores buscam estimular os leigos e não ouvirá nada além de “um serviço que salva vidas em situações de tragédia e calamidades”. E depois os radioamadores reclamam da galera que está torcendo pelas tragédias esperando salvar o mundo com seus Baofengs.

Não tem atrativo no discurso. Ou quantas pessoas você acha que estão dispostas a gastar R$2 mil, R$3 mil para montar uma estação para salvar o mundo com Yaesu dentro de uma cidade de 20 mil habitantes com internet, celular, estradas, bombeiros voluntários, defesa civil, polícia militar e todo um aparato de suporte em situações de emergência. É pouca tragédia, minha gente. Ou, a tragédia é pouca para fomentar o radioamadorismo.

Coisa de Velho

O Whatsapp é coisa de velho, afinal, legal é só chamar no Zap. Então todo esse aparato caro e complexo não serve pra nada.

Não tem nada ali para estimular um sujeito jovem de 40 anos a gastar alto nesse hobby. Não tem glamour. Só um monte de velhos barrigudos de camisa aberta, cardíacos e diabéticos de papo furado brincando com equipamentos eletrônicos velhos e caros enquanto tomam cerveja e enviam memes velhos e sem graça no Zap.

Porque fazer DX é caro, demanda investimentos em equipamentos e estudos, além de toda burocracia (que acho correta). Para que? Ativar Colômbia? Mano, a galera nem fala “câmbio”!

Não tem rádio no mercado

Dá pra dizer isso sim, não tem. Porque é muito difícil comprar um rádio transreceptor. Os poucos HF importados são oferecidos por valores acima dos R$6mil, alguns chegando a R$12mil, R$16mil. Um VHF na casa dos 80W fica ali perto dos R$2mil. As opções são tão caras e tão escassas que dá pra dizer: Não tem rádio no mercado.

Só isso já me faz questionar o hobby. Mano, eu vou mesmo entrar nessa parada? É mesmo um bom hobby para eu empatar meus QSJ? E se eu estragar meu caro rádio? Quem concerta essa parada? Tem assistência técnica? Porque, cadê a garantia?

Então tem muitas coisas que contribuem para A Morte do Radioamadorismo. Mas hoje vou ficando por aqui. Volte sempre, pois eventualmente vou pensando em mais coisas.

Existe solução? Na minha opinião, sim!

E não é trabalhar para atrair o jovem normal para o radioamadorismo. Mas trabalhar para atrair o outlier, o fora da caixa, o jovem fora do padrão. Atrair aquele jovem que se interessa pela vida outdoor, que se enfia no mato, que acampa, que faz trekking, trilhas, que sobe montanhas. É levar o radioamadorismo para as pessoas que já excursionam outdoor por outros motivos. O SOTA é uma excelente ferramenta para atrair os montanhistas para o radioamadorismo.

Não concorda com nada? Concorda com alguma coisa? Seja educado!

Eu sei que fui contundente. Gosto de ser contundente para dar aquela chacoalhada. É claro que existem jovens no meio, é verdade que nem todo radioamador das antigas é barrigudo, ou mal educado, ou soberbo. É óbvio que existe sangue novo de pessoas que sabem escrever e se expressar bem em um vídeo. Toda generalização já prevê a exceção, e essa galera é exceção a regra.

Então se quiser discordar de um ponto ou todos, por favor o faça com um mínimo de educação e procure discordar apresentando o motivo que te faz discordar, será ótimo se puder me ensinar alguma coisa ou me levar a rever os meus conceitos. Estamos todos aqui para evoluir. QAP 73

Qual distância o rádio Baofeng alcança?
Antena Nagoya NA-771 original

JosaJr

Um sujeito que mede o seu próprio sucesso pelo que inspira outras pessoas a fazerem de bom pelas suas vidas. Um eterno sonhador, corredor, artesão, cozinheiro, fly fisherman, criador do Endorfine-se, portal multi esportivo para quem corre ou pedala na rua e na montanha. Um belo dia resolveu levar uma vida mais saudável e perdeu 28kg em 5 meses e agora quer dividir com todo o mundo o que aprendeu e ainda vai aprender \o/

8 thoughts on “Radioamador sincero e a Morte do Radioamadorismo

  • fevereiro 10, 2021 em 5:58 pm
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    O radioamadorismo é a rede social mais antiga do mundo e acho lógico termos pessoas de todo tipo e qualidade nesse meio.
    Mas não acredito no fim do rádioamadorismo, afinal o que importa é a qualidade não importa a quantidade.
    Tenho inumeros amigos angariados pelas comunicações amadoras e todos prezam muito por essa amizade.
    É verdade que equipamentos são caros na América Latina e outros paises pobres, mas mesmo assim a criatividade não nos falta e tem muitos equipamentos usados e bons tecnicos para mante-los funcionando por um preço camarada.
    Abraço

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  • março 3, 2021 em 9:20 pm
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    Olá,
    Lendo seu post vi muitas verdades, vivemos num país rico de um povo pobre sim, renda “per capta” muito baixa face aos péssimos salários que se pagam na inciativa privada, muito influenciado pelo baixo nível acadêmico do brasileiro.
    Tudo que não produzimos tem preços proibidos(absurdamente caros) para os padrões brasileiros, caríssimos, mas que nosso conterrâneos pagam pelos mesmos produtos, culpa do nosso famigerado sistema tributário e da sede de nossos governantes corruptos em arrecadar cada vez mais do povo sofrido brasileiro.
    Nosso país é uma país inglório!

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  • abril 13, 2021 em 10:28 pm
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    Alguns comentários acima são absurdos, mas outros são válidos. O curioso é constatar que a maioria absoluta dos rádio amadores moram em centros urbanos. Poucos vivem em localidades afastadas onde a telecomunicação é precária. Para estes, o rádio é muito útil.

    Um outro dia, ouvi um diálogo em que proprietários rurais buscavam aconselhamento sobre problemas com suas máquinas rurais. No entanto, muitos não tem nada o que conversar.

    Um concorrente ao radio amadorismo é a evolução da telefonia rural que é fantástica. Em breve, aposentará o rádio amadorismo que ficará restrito a locais ermos. Esses locais, contudo, podem ser conectados por linhas dedicadas. Outro entrave é a burocracia da Anatel.

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    • abril 13, 2021 em 10:30 pm
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      Eu vivo m um local bem afastado.

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    • maio 13, 2021 em 4:09 pm
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      Com todo respeito, o radioamadorismo não se dedica a comunicações comerciais, como em fazendas e locais comerciais ermos. Os que utilizam este recurso não são radio amadores; seus propósitos são diferentes!
      Precisamos estimular o interesse pela ciência, pela pesquisa, pelo desenvolvimento, logo, estamos atrás de indivíduos fora do “convencional”.

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  • maio 13, 2021 em 4:05 pm
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    Boa tarde. Vi muita verdade no que dissestes. Há algum tempo, pensei em gravar vídeos para que o candidato realmente pudesse aprender o pouco que sei sobre rádio eletricidade, propagação, eletromagnetismo, pois para ensinar morse já tem um sem número de bons sites (e não sou um grande conhecedor). Ensinar um pouquinho de modos digitais, das coisas simples, como setup do computador, quando usa RTS, DTR, CTS. Desisti! Como vc cita, vi que teria que começar ensinando equação do 1º grau! Realmente, o radio amadorismo está nas ETECs, nas FATECs, no pessoal hipster.
    Se não chegarmos a este público, não sei como evoluirá no Brasil. Tentei viabilizar, comercialmente, amplificadores lineares a baixo custo e desisti pois os impostos de componentes são altíssímos e o números de consumidores baixos. Sem lineares não se faz DX abaixo de 7 mHz, não se faz EME!
    Teremos que criar projetos para entrada em escolas técnicas! Estes serão os multiplicadores. Abçs. a todos.

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  • junho 13, 2021 em 2:53 pm
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    Parabéns pela matéria. Ótima visão panorâmica. É, bem contundente, apesar de realista. E um pouco duro mesmo com relação aos antigos, ressaltou uma caricatura, porém real. Mas tem exceções. Estou começando agora, desde 2020, no radioamadorismo (fui Px nos anos 80) e já constatei toda essa dificuldade. Mas quanto maiores as dificuldades, melhores as chances de criar um diferencial, procurar soluções, se houver realmente interesse. E saber aproximar-se dos antigos. Recriar uma aproximação de todos, valorizar a amizade, a solidariedade, o compartilhamento de conhecimento. Assim poderão surgir as soluções. Sozinho, no individualismo realmente o rádio não existe. Como diz na música do Rush Spirit of Radio: “…Begin the day with a friendly voice..” O radioamadorismo precisa aperfeiçoar-se.

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  • junho 26, 2021 em 3:25 am
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    Você falou tudo. Comecei a me interessar faz pouco tempo e estou estudando do pra aprender do zero. Mas como você falou os materiais são muito caro, tem usado mas como eu não tenho um conhecimento grande ainda estou só na leitura. Espero um dia chegar na classe A

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